O público que bombardeia a mídia de informação

O público que bombardeia a mídia de informação

A inversão do processo criativo[1]

Ernesto Junior Antonini[2]

A representatividade da mídia altera conforme a sociedade lhe dá e espaço e o inverso também é válido. O processo midiático é um círculo interminável no qual a sociedade muda a mídia e a mídia muda a sociedade. Por isso sempre haverá um espaço mais adequado para cada produto e sempre existirá público para aquilo que for corretamente segmentado.

Diariamente as pessoas são bombardeadas com informações por meio dos veículos e isso torna o olhar do cérebro seletivo para as informações que considerar interessantes ou importantes, esse é o primeiro passo da compreensão para a segmentação de público: o público está ou não disposto a receber essa mensagem por esse canal. O processo de prever a seletividade do receptor gerou algumas campanhas surpreendentes nos últimos anos, maior parte delas relacionadas a um novo posicionamento sócio-cultural.

Foram listados alguns cases durante a discussão conjunta em sala, entre elas o audiovisual “Dove Evolution” da “Campanha Dove pela real beleza”, lançado em 2007. Esse vídeo citado causou grande impacto devido ao seu conteúdo relativo à mudanças entre a expressão natural das modelos e o resultado final de suas imagens editadas.

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Figura 1: Frames do Audiovisual Dove Evolution – Fonte: youtube.com

Esse audiovisual foi distribuído pela internet e causou tamanha repercussão ao ponto de criarem uma nova categoria para audiovisuais virais no reconhecido festival de publicidade de Canes. O vídeo viralizou rapidamente via emails com uma qualidade baixa de imagem, o que facilitou sua distribuição como anexo por vários continentes, até ser disponibilizado no youtube e ser um dos mais acessados.

Outro vídeo que se encaixa na discussão é um criado para Quercus pela McCann Erickson Portugal. É uma animação que mostra um macaco que se enforca na última árvore inteira no planeta, um urso polar que se joga do alto da última geleira e um canguru que se joga na frente de um trem por causa do meio ambiente devastado.

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Figura 2: Frames do Audiovisual para Quercus – Fonte: youtube.com

Esse vídeo é chocante e triste, mostrando o que seria do mundo se o aquecimento global não for freado. Assim como o audiovisual da Dove, esse para Quercus mostra aquilo que o público já está, pelo menos, parcialmente ciente, porém através de formas criativas e surpreendentes. Os dois audiovisuais são exemplos de como a criatividade aliada a receptividade do público podem ser eficientes.

Outros vídeos podem ser listados nesse mesmo grupo: um musical gravado com várias estrelas da música americana chamado “What’s going on?”, musical criado após os atentados de 11 de setembro de 2001. Alerta sobre os caminhos que a sociedade está tomando e como estamos cegos em não ver a óbvia decadência da sociedade como tal; outro audiovisual é sobre a síndrome de down, porém o objetivo desse é diminuir o preconceito contra os portadores, a assinatura do material é “Down, a pior síndrome é a do preconceito”; o último audiovisual listado nessa resenha é chamado “SOS Mata Atlântica” que mostra como seria se a floresta invadisse a casa de um típico cidadão urbano e destruísse tudo que encontra pela frente.

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Figura 3: Frames dos audiovisuais What’s going on? Síndrome de Down e SOS Mata Atlântica

Todos os vídeos listados estão inseridos em um grupo de alta receptividade, pois são (eram) assuntos que o público estava disposto a discutir e a receber a informação. Todos eles foram analisados a partir da semiótica, que é uma das teorias de representatividade dos signos, ou seja, eles foram analisados por aquilo que comunicam independente do seu propósito de criação.

É possível afirmar que a publicidade está de mãos atadas em relação à mídia e a relação com o público, pois o público delimita o conteúdo. Esse fenômeno fica mais claro a cada vez que se percebe que as campanhas isoladas sobre aquecimento global, tolerância, preconceito e busca de uma sociedade mais humana não são eficazes. Os atentados terroristas continuam, as imagens continuam sendo manipuladas, o aquecimento global continua em aceleração, as pessoas ainda sofrem preconceito por ser portadoras de doenças e o desmatamento da Amazônia não diminuiu notoriamente.

As considerações que podem ser feitas a partir da mesa redonda e dessa resenha são: a criatividade está aliada à liberdade de mídia e do público e à verba também, porém o público que recebe essa mensagem não está se envolvendo ao ponto até a ação; pode existir um problema de excesso midiático, um problema de efetividade da publicidade “tradicional” incluindo os novos meios, uma crise criativa ou ainda um conjunto dos três.

A mídia influencia e muito a vida da sociedade moderna, mas sua efetividade quanto a ação está cada vez mais comprometida. Espera-se que essa crise triangular não ataque o varejo, pois poderia ser a tão comentada decadência da publicidade na era digital.


[1] Resenha referente à mesa redonda sobre mídia à disciplina de Planejamento de Mídia, da Unochapecó em 29 de abril de 2009.

[2] Acadêmico do 8º período do curso de Comunicação Social Habilitação em Publicidade e Propaganda da Unochapecó, com curso de extensão na University of California Los Angeles em Publicidade para a indústria do entretenimento: filmes e televisão. Contato ernestoantonini@gmail.com.


Vídeos:


Sobre Ernesto Antonini

Leonino convicto, publicitário, estudou entretenimento na UCLA, trabalhou no Oscar e morou em Hollywood. É produtor de eventos, de casting, apresentador de TV e colunista social. www.ernestoantonini.com.br
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