Miss Universo e a mídia

 Quem poderia prever que as garras da indústria do entretenimento seriam eficazes até em concursos beleza? Donald Trump previu!

Desde os tempos dos maiôs Catalina e Long Beach, nos áureos anos 50 o Miss Universo é referência de beleza e elegância feminina.  Classe, medidas perfeitas e desenvoltura são essenciais para uma mulher elevar-se ao título de mais bela Senhorita Universal.  A competição de beleza que desperta o fetiche dos homens e o sonho das mulheres mudou muito em cinco décadas de existência. O objetivo é eleger a mulher mais linda do mundo, porém ela deve ser utilizável por um ano, ou seja, deve gerar notícia, acontecer e aparecer antes que vença.

Criou-se então o perfil perfeito de Miss Universo. Se Walter Benjamin estivesse aqui para conhecer Zuleyka Rivera (Miss Universo 2006), ele ratificaria todos seus conceitos de reprodutibilidade técnica. Uma obra de arte deve ser única, Zuleyka é o ápice da cirurgia plástica, o nariz perfeito, com os olhos perfeitos, corpo perfeito, sorriso perfeito, energia, vibração, simpatia e sexy appel. Eis o novo conceito de Miss Universo.

A edição de 2008 terá sua final no dia 14 de julho, depois de um mês de concentração das candidatas. Uma mega produção será montada no Vietnã, país sede, para a escolha da mulher mais rentável para Donald Trump (proprietário da Organização Miss Universo). Mais que beleza, classe ou simpatia a candidata precisa ser noticiável, usável, reciclável e politicamente correta. Os conceitos clássicos da missologia (miss + logia = resolva a equação) se desfazem diante de um perfil determinado para cada ano do Miss Universo. Ano a ano a vencedora é pré-planejada (não que ela seja eleita de forma ilícita, mas os jurados são orientados a votar no perfil do ano) para poder atender às necessidades mercadológicas e comunicacionais e render lucro$. Assim como na administração: preço de custo menos preço de venda é igual ao lucro.

A escolhida tem que mostrar seu potencial de revenda, de reversão dos investimentos. Nos anos 2000 não há melhor exemplo que Tara Conner, Miss Estados Unidos 2006, para provar. Parentêsis: Donald Trump é responsável pela Organização Miss Universo, que elege: Miss USA, Miss Teen USA e a Miss Universo. Fato: elas moram no mesmo apartamento em Nova York durante o ano de reinado.

Conner foi vítima do alcoolismo e toda a notícia que ela pode reverter em ‘money’ rendeu sua coroa. Em outros tempos ela seria destronada e cairia no ostracismo, mas na era Trump ela veio a público e falou de seu problema, abriu seu pobre coração e foi majestosamente perdoada pelo magnata americano. Virou notícia!

Padrão, tudo é padrão.

A beleza se padronizou, virou produto passivo da reprodutibilidade técnica. Não que seja menos bela por isso, mas perde o poder da arte, que é conceituada inicialmente pelo seu ineditismo.

Victoria’s Secret Fashion Show é o padrão para o Miss Universo. São as mulheres mais sexys do mundo. Todas muito parecidas, é claro. Lindas, em um show “very entertaining”, prendem a atenção dos espectadores por muito tempo e o olho passivo não decodifica as imagens como poder de marca, mas sim como poder e sedução, almejando o que vê nos brilhos televisionados para si.

 O Miss Universo está chegando perto de deixar todo o glamour de lado e tornar-se puro entretenimento (destilado triplamente). Vide edição de 2007, com a presença do grupo mexicano Rebeldes. Fruto da estratégia de comunicação de um bom publicitário (parabéns colega, seja lá quem você for), ação genial para atingir um público que desconsidera os concursos de beleza: adolescentes. A grande visibilidade gerada pelo grupo fez com que o show fosse um show.  Assim como acontece com o Fashion Show Pink quando busca Justin Timberlake, Spice Girls e/ou Will I’m.

Ficou tudo tão padronizado que são indistintas as misses de Trump das Angels da Victoria’s Secret. O reality show Pageant Place prova isso. Esse programa mostra a vida no dia-a-dia as misses do apartamento em NY, todas elas com seus mais humanos sentimentos, desmistificando o resto do misticismo que o feminismo deixou para as misses.

Agradecimento especial ao missólogo e amigo Thiago Juliani pelas discussões sócio-missológicas.

Leitura indicada: “From the peanut gallery” – James Gannaban

 

Ps.: Obviamente, para encerrar com tchauzinho de miss: não deixe de assistir o Miss Universo dia 14 de Julho ao vivo pela Band e pela TNT.

Escrito e Postado por Ernesto Antonini

Sobre Ernesto Antonini

Leonino convicto, publicitário, estudou entretenimento na UCLA, trabalhou no Oscar e morou em Hollywood. É produtor de eventos, de casting, apresentador de TV e colunista social. www.ernestoantonini.com.br
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